História

Conceituado e famoso pelo seu receituário doceiro, o Mosteiro de São Dinis de Odivelas perpetua, na memória e no palato de muitos, sabores de tempos seculares, que resistiram até aos nossos dias; falamos dos Suspiros de Amêndoa, das Raivas, dos Tabefes, dos Esquecidos, do Toucinho do Céu, do Pudim da Madre Paula, da Marmelada de Odivelas; sim da famosa marmelada de Odivelas, que se distingue das outras por ser branca; afirma-se hoje como Marmelada Branca de Odivelas.

 

Mandado construir pelo Rei Dom Dinis, em 1295, o Mosteiro de São Dionísio e São Bernardo, entregue à Ordem de Cister, acolheu filhas e muitas segundas filhas da nobreza, como forma de acautelar um modo de vida compatível com a sua condição social. Faustosa foi sendo a sua riqueza: dotado de muitos e proveitosos bens materiais, de reputação e de influência; tanto quanto da formosura e da beleza das donzelas que acolhia. Nunca, em tempo algum, alguma coisa lhes faltou…

 

Sobre as freiras Bernardas, Rocha Martins diz no seu livro Os Grandes Amores de Portugal : "Em Odivelas tudo era doce, desde o amor que as freiras prometiam no fusilar das suas pupilas e na suavidade das suas vozes, até à marmelada de exquisita composição, com que se atafulhavam os aristocratas e os vates."

 

Diz-se que o prestígio das freiras era de tal modo elevado que mesmo em tempos de grande crise e escassez, como após o terramoto de 1755, imperava no Mosteiro a abundância. Este era um sacrário da doçaria - nunca às freirinhas faltou o açúcar, produto raro, privilégio de poucos - para adoçar a boca dos seus eleitos. Nunca faltou açúcar para fabricar, entre muitos doces, a afamada marmelada; a coroa de glória das freiras.

 

"Descascados os marmelos, vão-se deitando em água fria. Vão a cozer em lume forte e depois passam-se por peneira. Para 480 g de massa, 960 g de açúcar em ponto alto, de modo que deitando uma pinga na água coalhe; então tira-se o tacho do lume e deita-se-lhe a massa muito bem desfeita com a colher; volta ao lume até fazer bolhas, tira-se para fora e deixa-se esfriar, para pôr em taças a secar."

Transcrição adaptada da receita da última freira do Mosteiro

 

Este legado das freiras Bernardas resistiu à extinção das ordens religiosas em 1886. O Instituto de Odivelas, que ocupou as instalações do Mosteiro em 1900, confecionava ainda nas décadas de 1930/40 a tão afamada marmelada.

 

A receita original chegou até aos nossos dias através de um caderno de receitas deixado pela última Monja, D. Carolina Augusta de Castro e Silva, que faleceu em 1909, à sua afilhada - D. Virgínia Adelaide Simões dos Santos. Ao passar para a sociedade civil, a receita da marmelada foi sendo cada vez mais difundida, passando a confeção desta iguaria a estar ao alcance de qualquer dona de casa e a ser produzida por fabricantes locais.

 

Reza a História que Dom João V, que reinou entre 1706 e 1750, não dispensava a tão prazerosa marmelada… que abundava pelo Mosteiro.

 

Guloso, galanteador, mulherengo e apaixonado, Dom João V era frequentador assíduo do Convento de Odivelas; visitante habitual das suas eleitas, que o disputavam com muita doçura. De entre todas Dom João V elegeu, para sempre, a madre Paula. Alberto Pimentel refere no seu livro As Amantes de D. João V que o Rei "entremeava as pulsações do coração com as contracções do estômago, mordiscando ladrilhos de marmelada com a madre Paula; e tanto assim que um desses quadradinhos de doce, com evidentes mordeduras régias, serviu, juntamente com outros ingredientes de procedência menos limpa, para uma célebre sorte de bruxedo que foi um dos mais apregoados escândalos desses tempos." - a lenda das bruxas salemas… ao que consta a bruxaria não resultou e Dom João V e madre Paula terão mantido o seu romance.

 

Entre muitos segredos entre quatro paredes guardados, as religiosas, exímias na confecção da Marmelada Branca, permitiram que o testemunho da autenticidade da marmelada produzida noutros tempos chegasse aos nossos dias; chegasse às nossas mesas - hoje, Marmelada Branca de Odivelas.

 

Exclusivo de Odivelas este doce branco celestial era oferecido a convidados e a visitantes, tradicionalmente na forma de pequenos cubos, que se levavam à boca e se comiam como se de um bolo seco se tratasse. A marmelada destinada à venda era embalada numa caixa de cartão que incluía um poema.

 

Para fazer as delícias dos apreciadores, nada como saborear este doce prazer abençoado.